segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ontem à noite


Quem sou eu?

------------Pergunta ela ao espelho, todas as manhãs o mesmo ritual, QUEM SOU EU?????? Grita em plenos pulmões ao espelho, lá fora cidade cinzenta, Londres, chove, como seria de esperar, o ritual de todas as manhãs repete-se, expulsar o ultimo fugaz amante da cama, espelho, a pergunta, café, bolo, cigarro, no canto escuro da sala imagens de si, todas com uma cara estranha, aquela procura de si, à noite o bar, a cerveja, os homens, perde-se para se poder achar.

Olá.

Olá.

Vi-te ai sozinha a beber cerveja, será que me posso sentar aqui um pouco.

Ele nem sabe o que o espera.

Claro, claro.

-------O espectáculo começa para ela, finge sorrisos e olhares, desmonta-os como quer, felina da savana urbana, caçadora.

Eu sou o George e tu?

O meu nome verdadeiro digo-te o amanhã, por hoje chama-me Su.

Não sabes o teu nome?

Sei, mas hoje apetece-me ser Su.

---------E ri-se timidamente, actriz.

Su, ok, esperas por alguém?

Não, apenas gosto deste bar, o jazz faz-me sentir viva.

---------Um bar pouco comum, música jazz ao vivo, pessoas de outro nível, homens complexos, e ela adora homens que se acham inteligentes, faziam-na sentir-se superior.

Diz-me George, que fazes tu da vida?

Eu? Eu sou escritor!

Escritor? Uau, no que trabalho é raro encontrar alguém assim. Interessante.

---------Mente. E ele como quem analisa uma frase, fica interessado!

E no que trabalhas tu?

Sou contabilista!

Hummm, então o teu forte são os números não as palavras!

----------O seu forte são os homens.

Diz-me George, eu até gosto de ler, mas para mim um livro tem que ter uma boa dose de pimenta e sal, escreves coisas do género?

Receio que não, sou poeta.

Hummmm poetas, apaixonados, boémios, agrada-me.

---------Ele ri-se.

Deves ter tido muitas mulheres pela mão com a tua poesia, não?

Algumas, procuro a ideal, a minha musa, não sou homem de apenas uma noite.

E no entanto, aqui estás tu, à minha beira.

Acho-te lindíssima, podias muito bem ser aquela que procuro.

Como podes dizer isso se nem o meu nome sabes?

Eu sei o teu nome, Su, pelo menos por esta noite.

Hummmm.

-------------Ri-se e sai, lançou o feitiço, não interessa o que ele quer, já o caçou, quer uma musa, mas se a seguir vai-se desiludir.

Espera.

-----------Já à porta do bar, ficou tão abananado com a saída de rompante dela que caiu que nem um patinho na sua armadilha.

Sim?

Vais-te já embora.

Sim, ia agora chamar um taxi.

Ahhhhhhhh eu levo-te a casa, tenho carro, queres boleia?

Hummmm pode ser.

----------E o resultado do costume, os homens são totais burros na presença do charme feminino, ele estaciona, sobem com o pretexto de mais uma cerveja, o beijo acontece, depois o sexo, várias posições, seres como animais, vicio do sexo.

E as horas passam quando o sono se instala................................................

Quem és tu?

--------------A pergunta muda, ela não sabe, quem é ele, George? Talvez sim, talvez não. Nesta noite achou-se, Su, que era diminutivo de Susan, sabia o seu nome, e a rotina quebra-se, a caçadora deixou-se caçar, não expulsou o ultimo fugaz amante da cama, este saiu pouco depois dela adormecer, espelho, a nova pergunta, café, bolo, cigarro, no canto escuro da sala imagens de si, todas com uma cara estranha, aquela procura de si, à noite o bar, a cerveja, procura o que perdeu ontem à noite para se poder achar.

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